segunda-feira, janeiro 03, 2005

Um artigo que escrevi

"11 Set: Quase Tudo ou Quase Nada?

No dia 10 de Setembro de 2001, as coisas por cá pelo mundo andavam, se assim se pode dizer, normais: O Iraque de Sadam Hussein tentava dar voltas ao embargo económico a que está sujeito e mantinham-se polémicas sobre o que andaria a preparar nas suas fábricas de guerra.
Tanques Israelitas cercavam uma cidade Palestiniana, havia notícias de novos mortos de um lado e outro e falava-se da urgência de conversações.
Ecoavam ainda os resultados de uma ambiciosa Conferência das Nações Unidas Contra o Racismo, em Durban, cuja declaração final não ia além de genérico conjunto de boas intenções, pois ninguém se entendeu sobre acção mais concreta.
Os Estados Unidos e o FMI reviam em baixa as suas previsões de crescimento económico.
As bolsas voltavam a registar novas baixas, um pouco por todo o lado, do Japão à Europa, passando por Portugal.
O primeiro-ministro Português falava as importância de melhorar o ensino e os resultados escolares em Matemática.
Milhares de professores viam-se em risco de não encontrar colocação para o novo ano.
Entre nós, a Ribeira de Poiares não se apresentava como tal, perfumando as ruas do Fundo da Vila. Mas, a Câmara Municipal acondicionou as margens e prometeu pôr em funcionamento a ETAR, já concluída.
Os jornais comentavam as polémicas de um novo concurso “reality” em preparação na TVI e Emídio Rangel deixava a SIC com uma avantajada indemnização.
E assim por diante. Até que, de repente... (...)
No dia 10 de Setembro de 2002, as coisas cá pelo mundo andam, se assim se pode dizer, normais: Rangel deixou a RTP com uma interessante indemnização, enquanto um novo concurso da TVI ocupa páginas e páginas de jornais e revistas.
A Ribeira de Poiares e, principalmente os moradores do Fundo da Vila, continuam a esperar por ar puro. A Câmara Municipal, não diz, mas decerto que a ETAR, já concluída, deve abrir numas semanas, ou dias, ou mesmo horas... de um certo ano.
Muitos professores não devem ter colocação no novo ano – um ano em que o Governo quer abrir novas pistas para a aprendizagem da matemática.
As Bolsas não dão sinais de retoma e, no que toca a Portugal, anuncia-se que metade das corretoras correm o risco de desaparecer.
A situação económica mantém-se frouxa e as previsões de recuperação vão sendo olhadas com cautela.
Israelitas e Palestinianos continuam, centenas de mortos depois, a não conseguir uma réstia de entendimento.
Sobem de tom as ameaças dos EUA face ao Iraque de Saddam Hussein, acusado de estar a equipar-se com armamento químico e nuclear.
Ecoam ainda os frustrantes resultados da Cimeira Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, realizada em Joanesburgo, e onde, para além de uma declaração final de boas intenções, não foi possível qualquer entendimento concreto sobre um ataque decidido à pobreza ou sobre um maior recurso a energia renováveis em vez do petróleo.
E assim por diante. E se, de repente...?
Já nada nos surpreenderia. Isso sim, é novo.
O que falta mudar? Quase nada ou Quase tudo...
Uma coisa mudou: a nossa certeza de que, neste mundo, não há lugar nem estar de “risco zero”, por muitos guardas que se tenha em volta...
P.S. Aprendi com Joaquim Fidalgo, na edição de 11/09/2002 do “Público”

José António Pedro"

in, APJornal nº 3, 30 Set 2002